ADVERTÊNCIA

Este Blog contém algumas de minhas ideias, crenças e valores. Por não ter o objetivo de ser referência, não deve ser acolhido como "argumento de autoridade" e, muito menos, como verdade demonstrativa, cartesiana.

Aqui o leitor encontrará apenas reflexões e posições pessoais que poderão ser peneiradas e, por isso mesmo, rejeitadas ou aceitas, odiadas ou amadas. Assim, não espere encontrar fidelidade a alguma linha de pensamento ou a uma ideologia em particular. Permito-me a contradição, a incerteza, a hesitação, a descrença, a ironia; permito-me pensar.

Após as leituras, sei que uns concordarão, outros não, e haverá também os que encerrarão a visita levando uma pulga atrás da orelha. Não me importo. Se causar alguma reação, mesmo o desassossego, considero que atingi o meio. O fim fica por sua conta.

Abraços a todos e boa leitura.

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

A FÉ EM ABSTRAÇÃO E EM CONCRETUDE: O JOGO ANTITÉTICO DE CRER-SER E SER

Moisés Olímpio Ferreira


"Aquele que diz que continua permanecendo nele deve, assim como ele andou, também [assim] andar." (1 João 2.6)

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O contexto imediato desse versículo fala sobre “conhecer” Deus, em que conhecê-Lo é estar nEle, e estar nEle é conhecê-Lo. Segundo João, temos uma referência segura: e nisto sabemos (estamos na ação contínua de saber) que o conhecemos (que estamos no ato concluído de conhecer) se os mandamentos dele guardarmos (se estivermos no ato contínuo de guardar)” – 2.3.
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Desse versículo, chama-nos a atenção os aspectos em que se encontram os verbos. Para o escritor, só é possível ter a certeza presente (em ato contínuo, atualizado) de que se tem conhecimento (em condição de estado completo) de Deus, quando se está no ato presente (contínuo, atualizado) de guardar os Seus mandamentos.
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O apóstolo enfatiza essa mesma idéia, por meio de repetições (2.4):
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"O que está dizendo que: ‘Eu o conheço’ (estou na condição acabada de conhecer), e em relação aos mandamentos dele não é vigilante (não está no ato contínuo de guardar/manter guarda), falso é e nele a verdade não está."
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A ênfase está sobre o ato contínuo de guardar como evidência externa de se ter atingido a condição de conhecimento a respeito de Deus. É evidente que conhecer não está no sentido de “ouvir dizer” ou de “ter informações a respeito de”, ou de “ter formação acadêmica religiosa sobre”; na verdade, trata-se de “manter relações pessoais estreitas”, “experimentar”, “identificar-se”, “relacionar-se”. Alguém pode afirmar, por diversas razões, que o conhece, mas para João isso só é verdadeiro caso se possa observar uma permanência contínua nEle e não um ato histórico, mesmo que empírico, passado.
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O versículo 5 enfatiza essa idéia como evidência de completude. O amor em seu estado completo está naquele que continuamente guarda (numa relação de mão dupla: guarda porque ama - ama porque guarda):
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"Ele, se guardar (se estiver guardando) a palavra dele, verdadeiramente nele o amor de Deus está completo; nisso estamos conhecendo que nele estamos."
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Atingir o amor de Deus como um estado (e se aqui o “amor de Deus” puder ser equivalente ao “amor a Deus” - o que parece mais óbvio – teremos a seguinte afirmação: verdadeiramente o amor que ele tem a Deus está completo) está na mesma condição, marcada por uma eventualidade "se", que chegar ao conhecimento dEle. Tanto um quanto o outro estão sujeitos à realização de um ato contínuo que pode ou não se realizar: se estiver guardando.
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Em razão da existência dessa condição, João mostra que é possível viver apenas do que é semelhante, e então estabelece o jogo entre “parecer-ser” e “ser”:
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De um lado:
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Temos aquele que diz, o que afirma ser; o que parece ser, mas não é. Vive nas e das aparências. Aquele que parece-ser, mas não é: vive no ato contínuo do erro, porque não guarda.
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"Aquele que diz" não tem paracleto, embora o sacrifício seja em prol de todos. O que parece-ser afirma: “conheço”, mas mente.
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O que parece-ser, porque apenas diz mas não guarda, não tem a plenitude do amor de Deus nele; o seu amor a Deus certamente tem razões impróprias.
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De outro lado:
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Temos aquele que guarda os mandamentos, o que é vigilante.
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Aquele que parece-ser e é: ele pode ocasionalmente errar, mas não vive na prática do erro. Daí o uso do aspecto verbal grego no aoristo que indica ação pontual e, do modo subjuntivo, que indica eventualidade: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não erreis” 2.1.
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Aquele que é tem paracleto junto a Deus. “Se alguém errar, temos um advogado para com o Pai...” 2.2 - O ato do erro novamente está marcado pelo aspecto e modo do verbo que remetem à pontualidade e eventualidade. Essas condições são próprias apenas aos que são, porque guardam.
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O que é, não afirma necessariamente, mas está no ato contínuo de guardar e, por isso, conhece.
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O que é, porque vive no ato de guardar, conhece de forma plena o que significa amar a Deus.
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A questão joanina, portanto, é: dizer pode não evidenciar o ser. Para ele, a afirmação só é válida quando acompanhada das evidências que a comprovem. A fé apresentada apenas enquanto afirmação psicológica ou ato experimental passado está morta, pois não é evidenciada pelas ações no presente (cf. Tiago 2.17). Fé nunca foi sinônimo de simples emoção, de afirmações positivistas, de crença mental, de ato pessoal histórico; sempre está relacionada a atitudes concretas, a ações perceptíveis, a atos sensíveis atualizados que dela são provenientes.
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Em 1 João 2:6, o “dizer ser” passa a ser válido somente quando está submetido ao “dever ser”:
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"Aquele que está dizendo que está permanecendo nele DEVE, assim como ele andou, também [assim] estar andando."
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Não se trata de uma ação opcional. Permanecer em Cristo exige ações concretas tais como as dEle. A palavra da vida não reside no pensar-ser em abstração, é fazer-ser em concretudo. Para evitar espiritualizações de suas palavras, João exemplifica (v. 9):
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"O que está dizendo estar na luz e ao mesmo tempo despreza a seu irmão, na escuridão está até agora."
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As palavras ditas não amparadas no fruto do Espírito Santo são incompatíveis com a ideia do ser. Esse alguém pretende convencer a si e aos outros de que está na luz por meio de afirmações positivas ou por fé psicológica, mas ele não anda como Cristo andou, não guarda os mandamentos dEle e, portanto, engana-se completamente, é mentiroso, está em treva.
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Não é aquele que diz que permanece na luz, mas aquele que ama a seu irmão (v.10): " quem está amando a seu irmão, na luz está permanecendo". Quem despreza, mesmo que afirme estar em Cristo, está fora da luz (na treva), anda na escuridão, não sabe seu destino, está cego (vs. 10 e 11).
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João chama a atenção de seus leitores. Ele reforça a necessidade de uma comunidade ativa, realmente em comunhão; ele condena as palavras vazias, ocas, que não estão preenchidas com ações. Em 3.18 ele diz: "Filhinhos, não estejamos no ato de amar com palavra, nem com língua, mas em obra e (em) verdade".
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A epístola de 1 João está repleta de convocações ao crer ativo:
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3:10, 11: "nisso são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não faz justiça não é da parte de Deus, e (também todo) aquele que não ama a seu irmão. Porque esta é a mensagem que ouviste desde o princípio: que amemos uns aos outros."
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3:23: "E este é o seu (de Deus) mandamento: que creiamos no nome do seu filho Jesus Cristo e amemos uns aos outros, como deu-nos mandamento."
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4.7: "Amados, amemos uns aos outros, porque o amor é de Deus (vem de Deus), e todo aquele que está amando, de Deus é nascido (está na condição de nascido) e está conhecendo Deus."
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4:20, 21: "Se alguém diz que ama a Deus e a seu amor despreza, mentiroso é; pois, o que não ama o seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê. E temos este mandamento dele: que o que ama a Deus, ame também o seu irmão."
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Mas essas convocações são ao amor concreto, visível, perceptível; são convocações à fé-ação. Não está se pensando em explosões de emoção, de lágrimas, de gritos, e muito mesmo em afirmação doutoral ou de orgulho fétido de algum dogma denominacional.
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Para deixar bem claro, João dá outro exemplo nada espiritualizado (3.17):
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"Ele, se tiver meio de viver do mundo e contemplar o seu irmão tendo necessidade e fechar as suas entranhas, como o amor de Deus permanece nele?"
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A voz paulina ecoa na mesma direção quando exorta Timóteo a que isso ensine em sua comunidade:
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"Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna" (I Tim. 6.17-19).
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Se considerarmos a recomendação de João (“como Cristo andou devemos nós andar”) apenas sob a dimensão espiritual – e é o que ele parece rejeitar -, o cristão tenderá a fechar-se em seu universo religioso e a renunciar seu papel de produtor de transformação; ele se limitará a abraços, a sorrisos, a apertos de mãos sem compromissos reais com o outro, ou a discussões teológicas inúteis, a afirmações de fé calcadas em raciocínios ludibriantes; a ritos, a dogmas envelhecidos e petrificantes.
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Os mandamentos de Cristo requerem muito mais do que relações de boa vizinhança, sem comprometimento e sem aproximação; exigem muito mais do que a pregação sobre o amor; esperam muito mais do que um conjunto normativo de regras para o bom comportamento; reclamam muito mais do que uma defesa de fé abstrata e do que reuniões dominicais não raras vezes enfadonhas: eles geram a prática em sujeitos sociais, em homens e mulheres que produzem e alteram o seu ambiente, porque estes amam a Deus, guardam seus mandamentos, conhecem-no.
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Criamos o hábito de parecer-ser, de dizer que somos de Deus, de que estamos em Cristo... Entretanto, não podemos esquecer que o foco sempre está no ser-fazer.
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Essas reflexões me fazem lembrar das palavras do Mestre, sobre as quais devemos sempre meditar:
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Mateus 7:21-27: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?
E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha.
E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.
E aquele que ouve estas minhas palavras e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia.
E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.”

3 comentários:

  1. roberto.asouza@hotmail.com9 de outubro de 2008 13:41

    Oi mano...amei o comentário deste texto,pois estava estudando João 15 e queria algo sobre o *permanecer*..você foi maravilhoso em suas colocações...muito edificante(continue....)

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  2. Nossa quanto tempo professor Moisés, sempre abençoador seus ensinamentos, gostaria muito de ter contato com professor novamente, fui secretária da Beth Shalom, lembra, Marli Marques dos Santos, parabéns, que Deus sempre te abençoe!!!

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  3. Olá Marli! Claro que me lembro de você. Espero que tudo esteja bem contigo. Meu email é moisesolim@usp.br. Escreva-me quando quiser. Abração.

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