ADVERTÊNCIA

Este Blog contém algumas de minhas ideias, crenças e valores. Por não ter o objetivo de ser referência, não deve ser acolhido como "argumento de autoridade" e, muito menos, como verdade demonstrativa, cartesiana.

Aqui o leitor encontrará apenas reflexões e posições pessoais que poderão ser peneiradas e, por isso mesmo, rejeitadas ou aceitas, odiadas ou amadas. Assim, não espere encontrar fidelidade a alguma linha de pensamento ou a uma ideologia em particular. Permito-me a contradição, a incerteza, a hesitação, a descrença, a ironia; permito-me pensar.

Após as leituras, sei que uns concordarão, outros não, e haverá também os que encerrarão a visita levando uma pulga atrás da orelha. Não me importo. Se causar alguma reação, mesmo o desassossego, considero que atingi o meio. O fim fica por sua conta.

Abraços a todos e boa leitura.

PS: Acesse também: http://moisesolim1.blogspot.com.br/

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

REALIDADE X FÉ: A CRISE INSTAURADA

Moisés Olímpio Ferreira

Romanos 8:18-23: "Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo."

Não podemos negar que de tempo em tempo nós nos encontramos dispostos a repensar a presença e a ação de Deus na nossa vida, na dos outros e na do mundo. Diante das inúmeras situações funestas, das fortes imagens que vemos pela TV, das chocantes notícias que lemos nos jornais, das duras experiências de nossa própria vida e das de pessoas próximas de nós, é impossível que o ser humano não se depare com situações que exijam avaliação quanto à existência, à atividade, à influência, à imanência de Deus no mundo.

Polêmicas não são novidades dentro da História do Cristianismo. Constituir controvérsias é bem próprio do caráter - ao mesmo tempo perscrutador e insatisfeito - do ser humano.

Realmente consigo compreender aqueles irmãos dos primeiros séculos que sentiam dificuldade em ouvir sobre Jesus-homem (que experimentou a fome, o cansaço, a tristeza, a dor, a morte...) e crer que ele era “a habitação de toda a divindade” (Colossenses 2.9); parte de suas mentes estavam simplesmente confusas. E será que algo semelhante já não se passou conosco, mesmo que a respeito de outra matéria?

Talvez o debate sobre a natureza de Cristo não esteja muito mais em pauta; é improvável que façamos Concílios para definir os rumos da Igreja (mesmo porque a sua unidade institucional está esfacelada e, da Reforma, sobraram apenas algumas expressões morbidamente racionais de religiosidade) sobre as controvérsias arianas em suas expressões religiosas modernas, ou sobre a trindade, ou sobre a questão iconográfica.

Mas outras questões ainda estão sem resposta satisfatória. Como explicar que muitos ainda são mortos por balas perdidas? Que gente morre com certa freqüência durante assaltos? Que mulheres e crianças são violentadas física e psiquicamente? Que garotos de 12 anos possam matar a avó a facadas? Como justificar a dor dos pais que tiveram seu filho de 6 anos arrastado por ruas afora até à morte? Como conviver com a crueldade das guerras, das pestes? Como permanecer indiferentes diante do fato de que milhares de pessoas estão morrendo de fome no mundo? Como ver um amigo, um pai, ou um filho agonizando sobre uma cama? Como entender um mundo tão violentado pela pobreza, pela miséria, pelo terrorismo econômico e armado? Podemos fechar os olhos à imensa lista de violência, de dor, de mágoa, de traumas, de tristezas profundas? E, para piorar, como ficar indiferente a tantos escândalos no meio das igrejas chamadas “evangélicas”? Quando olhamos para esses poucos fatos entre milhares de outros, realmente entramos em choque.

Como entender Deus no quotidiano humano sem reduzir, entretanto, o Seu amor, ou sem torná-Lo impotente?

Poderíamos dizer que tudo isso aconteceu pela “vontade divina”? Que tudo já tinha sido predeterminado em Seu livro? Que os 154 mortos pela queda do avião da Gol e os quase 200 da TAM tinham seus nomes na lista “negra” de Deus? Que o desastre do buraco do metrô foi uma necessidade fatal? Que os que ficaram sob os escombros morreram porque chegou a hora pré estabelecida de eles irem para o outro mundo?

Alguns tendem a “explicar” por meio da velha idéia de que o “sofrimento” é para o nosso bem, e a partir daí, justificam tudo o que ocorre de mal na vida humana. Deus, em sua sabedoria, dizem, considera o sofrimento como uma alavanca espiritual; assim crescemos com a dor, com a perda, com a desgraça, pela convivência com os males. Essa explicação tem a pretensão de tornar as pessoas mais resignadas, conformadas com as catástrofes. “- Deus sabe o que faz”, dizem. Mas teria sido realmente Deus que arquitetou essas situações para chamar pessoas à glória ou enviá-las ao inferno?

É verdade que a nossa reação positiva diante do sofrimento traz certo amadurecimento (e isso serve para qualquer pessoa, cristã ou não). Mas, pergunto: o que o povo iraquiano tem aprendido com o sofrimento senão que o Deus do mundo ocidental é invasor, injusto e mal? O que muitos africanos têm aprendido com as guerras civis, com a fome e com a aids, senão que estão esquecidos pelo resto do mundo cristão?

Outros, para não reduzirem o amor de Deus face às desgraças, preferiram acreditar em que, para Deus, os fatos são cogniscíveis na mesma proporção que eles são para nós, de modo que Ele sofre e é surpreendido pelos acontecimentos imprevisivelmente desastrosos. Deus tem compaixão - sofre junto conosco -, mas não pode fazer nada para evitar! Propõem a reavaliação da natureza de Deus para que o Seu amor fique intocável. O que é interessante nessa idéia é que estão subjacentes as crenças de que Deus tanto não é onisciente quanto não tem capacidade – na construção da história - de aprendizagem, haja vista que sempre – mesmo quando outros fatos desastrosos se repetem em condições semelhantes – é surpreendido pelo acaso.

Essas respostas, ou geram pessoas conformadas e conformistas, ou têm sido um “tiro no próprio pé”, porque a natureza de Deus, de alguma forma, está sempre posta em questionamento.

O que na verdade ainda não temos aceitado é que Deus valoriza a liberdade e não a anula mesmo que ela produza resultados indesejáveis. Deus estabeleceu leis naturais às quais todos nós estamos sujeitos. Se eu pular de um prédio, se eu tomar veneno ou um remédio incorreto, se eu me ferir, é bem provável que naturalmente eu fique doente ou morra, independentemente de Ele conhecer os fatos de antemão ou de me amar profundamente! Se houver um terremoto, um tsunami, um furacão, se o avião cair, se alguém provocar ferimentos em nós, se cairmos num abismo, sofreremos (cristãos ou não) naturalmente as conseqüências desses acontecimentos (dentre os quais muitos são conseqüências da própria destruição que o homem tem feito a si e ao planeta!). Se pela maldade os homens são capazes de matar, roubar, destruir, o problema não está na falta de onisciência ou na falta de amor da parte de Deus, nem tão pouco em um trabalho divino bizarro de dar crescimento a alguém pelo sofrimento. Isso é balela que objetiva espiritualizar as questões de ordem natural.

No que se refere a este mundo, Deus está no controle de todas as coisas pelas leis que Ele estabeleceu e às quais devemos obedecer se quisermos viver bem. Veja, leitor, que até mesmo às leis situacionais criadas pelos homens a Bíblia, não por acaso, recomenda obediência:

"Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem" (1 Pedro 2:13-14).

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Romanos 13:1-7).

Então surge a questão: Deus apenas controla pelas leis naturais? Abandonou-nos Ele à sorte dessas leis que se tornaram graves “por causa do” e “contra” o homem pecador? De modo nenhum! Seu desejo é estar em tudo e em todos, embora permaneça, pelo livre arbítrio, mais próximo dos querem crer! Ele realmente se compadece de nós e nos auxilia na carreira que percorremos; ele sabe o porquê do nosso sofrimento e o quanto ainda sofreremos! O que não podemos esquecer (e muito menos espiritualizar) é que estamos ainda vivendo sob as leis naturais que regem este mundo (e o mundo, sob as leis que regem o cosmos), e isso tem a ver com o quanto Ele nos ama, pois elas foram criadas para o bem. Se elas entretanto causam males, não é pela falta do Criador, mas pela da criatura e do pecado que a sujeita e, quanto a isso, Ele não está apático, pelo contrário, prepara o momento de restauração e de libertação. Paulo afirma que “a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus”, pois a esperança que tem é a “de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus”.

Pode Ele interferir nessas leis? Sim, Ele pode! (abriu o mar, acrescentou 15 anos na vida de Ezequias, manteve Jonas vivo no ventre do peixe, fechou a boca dos leões famintos, curou cegos, paralíticos etc), mas não é essa a Sua maneira quotidiana de ação e não podemos julgá-Lo pelas ações pontuais. Deus é amor (1João 4.8), mas o mundo jaz no maligno (1 João 5.19) e é neste mundo que nós vivemos! As dores, os males, as tristezas, as catástrofes são próprias deste mundo que jaz no maligno, governado por homens cujas mentes estão corrompidas pelo pecado e habitado por seres humanos que estão contaminados pela rebeldia. Vivemos aqui e sofremos neste corpo de humilhação (Filipenses 3.21) tudo o que é natural a este lugar! Ora “sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” e, portanto, “também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”.

Não devemos tentar viver o “triunfalismo” que ouvimos na mídia, como se estivéssemos imunes a tudo e a todos, porque certamente nos desapontaremos por razões incorretas com Deus. Toda a humanidade passa pelas mesmas aflições, mas o cristão tem o exemplo maior de sofrimento e de triunfo: o seu mestre Jesus. As mesmas palavras ditas aos discípulos servem para nós: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33).

A nossa mensagem ao mundo deve ser de esperança em meio a tudo isso: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós”. A boa-nova que a igreja porta não é a de triunfo humano, não é a de conquista financeira e de vitória material, de livramento de doenças e de proteção angelical 24 horas, de plantar dinheiro e colher dinheiro, ou de que Deus está se desenvolvendo na história – isso tudo é bobagem! -, mas é a de ESPERANÇA de que Ele não está insensível, de que Ele sabe, pode, quer e está fazendo alguma coisa. Desde as eras primitivas Ele já estava trabalhando nessa intenção, até que ocorre entre os humanos o fato mais inefável: Deus-Filho arma a sua tenda entre nós! Assim, embora antes estivéssemos “...sem Cristo.. não tendo esperança e sem Deus no mundo”, agora, revitalizados e revivificados pela aproximação proporcionada “...pelo sangue de Cristo” (Efésios 2:12-13), podemos perceber que Ele não está indiferente e, portanto, confiantemente aguardar “a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”, quando então a natureza inteira será libertada do poder do pecado que a coage a viver no mal.
Nesse ínterim, sofremos a dor, o desastre, a perda irreparável, o horror, a catástrofe, que não são para o nosso bem, nem permitidos pela Sua onisciência para algum objetivo misterioso, e nem acontecidos pela Sua falta de ciência. Tudo simplesmente advêm da condição do mundo no qual vivemos. Entretanto, o que é certo, é que Ele está aqui também, conosco (e nesse sentido Ele se constrói na História), vivendo cada momento ao nosso lado, simpático a nós. A mensagem da Igreja é que há uma saída, que o túnel não está fechado, que a luz não está apagada, que Deus não nos abandonou, que a dor e a morte não é o meio e nem o fim. Essa é a boa-nova: “...estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8.38 a 9.1). Só pensando assim é que é possível entender o grito eufórico de Paulo: “Onde está, ó morte, o teu aguilhäo? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (I Coríntios 15.55).

domingo, 20 de janeiro de 2008

A violência moderna em "Triste fim de Policarpo Quaresma"

Moisés Olímpio Ferreira
O Dicionário Caldas Aulete, entre as muitas citações, define violência como a “qualidade do que atua com força ou grande impulso; força, ímpeto, impetuosidade, irascibilidade, força que abusivamente se emprega contra o direito, opressão, tirania, coação”. Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico, caracteriza violência como a “qualidade de transgredir, profanar, violar”. Esse tema está presente em toda a extensão de "Triste fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto; é latente e apresenta-se de múltiplas formas.
Logo no primeiro capítulo já nos é possível antever o processo progressivo dessa força impetuosa, irascível, opressiva, tirânica que o protagonista haveria de sofrer. Lembremos que Policarpo, um homem de muitos frutos [nome proveniente do grego formado por polys (muito, numeroso) + karpós (fruto)], era conhecido por todos como uma pessoa séria, honesta, boa, doce, modesta, de propósitos altos e hábitos severos, profundo conhecedor das grandezas do Brasil, fossem na ficção, na poética, na história, na geologia, na mineralogia, na geografia, ou na botânica. Como bem reforça o narrador: “...depois de trinta anos de meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação”.
Fazendo jus ao seu nome, Policarpo ainda era fiel às tradições, aos “...usos genuinamente nacionais...”; estudou os índios; aprendeu o tupi-guarani com paixão, afinco, e com profundo amor à língua mãe; preferia os pratos brasileiros, como dizia: “A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente”.
Quando se falava em roupas e calçados, Quaresma já tinha a sua opinião: “Visto-me com um pano nacional, calço botas nacionais e assim por diante”. O licor, a banha, o toucinho, o arroz, as flores do jardim, tudo nacional. Em uma única palavra, Quaresma era um patriota!
E foi nesse “espírito” nacionalista que ele quis aprender violão, instrumento que bem acompanharia a modinha, que era a expressão da alma nacional: “Consultou historiadores, cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha”.
Porém, mesmo sendo um brasileiro com tantos frutos apreciáveis, não ficou isento da violação dos seus direitos de escolha, de sofrer a depreciação por uma sociedade alienada e acostumada à mesmice e à burocracia.
Por conta de suas aulas de violão, foi denominado de perdido, maluco, além de julgarem-no estar metido em “malandragens”.
A própria irmã de Quaresma, embora muito ligada a ele, “...não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem”.
Além do mais, Adelaide, como os próprios irmãos de Cristo, não compreendia Policarpo em nada. Quando se mudaram para o Sossego “...a irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira! Seguira-o ao “Sossego” e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irmão cultivador”.
A personificação dessa sociedade desajustada e agressiva bem se apresenta na figura do Dr. Segadas que “...não podia admitir que Quaresma tivesse livros: ‘Se não era formado, para quê? Pedantismo!’”.
Diante de um processo corrosivo do caráter do ser humano, Quaresma possui uma imagem antagônica: representa o indivíduo desenvolvido que, por analogia, deveria ser espelho, ou uma miniatura de uma sociedade evoluída. Antagônico porque a sua condição pessoal feria a pseudo “evolução” - individual, social, econômica ou política - do meio em que vivia.
Quaresma é uma tipificação material paralela à figura de Cristo no âmbito do espiritual. Enquanto Cristo não foi compreendido pelos religiosos e sábios espirituais da sua época a ponto de o crucificarem, Quaresma não foi recebido de modo diferente, o que já prefigura o seu fim.
Nesse personagem, é possível que Lima Barreto tenha despejado a incumbência de carregar a cruz pesada do ser humano evoluído até ao “monte” chamado República, onde seria martirizado pela formação social insana.
Ironicamente, o seu sobrenome é Quaresma que, na tradição da Igreja Católica, refere-se ao espaço de quarenta dias, começando na quarta-feira de cinzas e terminando no domingo de páscoa, período esse de penitência, de recolhimento espiritual, de abstinência de carne e de jejuns em memória dos quarenta dias passados por Cristo antes da sua paixão.
O início da quaresma se dá na quarta-feira de cinzas que é a quarta-feira imediata ao último dia de carnaval. Os ramos guardados do Domingo de Ramos são incinerados e com as cinzas traça o sacerdote uma cruz na testa dos fiéis, lembrando-lhes o começo do período de penitências, mormente depois dos muitos desatinos do carnaval. Ao traçar a cruz, diz o sacerdote: “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem te reverteris: Lembra-se, homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.
Policarpo viveu uma vida penitente, sem muitos amigos, sem pretensões ao poder, riqueza ou fama. Como diz o texto: “Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquiriu a candura e a pureza d’alma...”. É como se em seu interior estivesse entalhada uma cruz, uma missão que o levava à prática do não-natural, do não-comum. Quaresma viveu durante toda a sua vida numa “quaresma” esperando chegar à páscoa.
Na tradição Católica, a Páscoa é a festa da ressurreição de Cristo e, portanto, a sua maior festa. Policarpo, duplamente ironizado, não chegou até lá. Morreu violentamente deixando lembranças em poucos: “Ele tinha que ir para o posto de suplício, tinha que subir o seu Calvário, sem esperança de ressurreição”.
A violência, assim, apresenta-se ramificada nas mais diversas expressões e camadas sociais, tanto na esfera individual quanto na social.
E é assim que a escravidão, que embora seja terrível em si mesma, podia até gerar saudades face à espoliação do então negro livre. Quando Quaresma visita Maria Rita, uma negra consumida pela escravidão e pelo tempo, a voz narrativa fala: “Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se...”
Anastácio, o criado, já permanecia com Quaresma há trinta anos e dele não se desprendia porque bem conhecia o sofrimento que a sociedade lhe havia de impor. Beneficiado como um “agregado” de Policarpo, não era escravo nem empregado, porém não deixara de ser um preto velho com “...ternura passiva de animal doméstico...”, traço esse que o mundo lhe entalhou de maneira natural.
E da rapariga preta observada por Ricardo se diz: “Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor”.
No âmbito militar, a burocracia era patente. As nomenclaturas eram concedidas esvaziadas de sentido prático, calcadas fundamentalmente no necessário estado de “protegido”. Em busca de projeção, os militares não mediam esforços.
O General Albernaz era um homem medíocre, bonachão, alienado: “Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro..., cuja maior dedicação era casar suas filhas e nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro”.
O Contra-Almirante Caldas “...nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo”. Inocêncio Bustamante bajulador e interesseiro “...não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num, pedia inclusão no Asilo dos Inválidos, noutro honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos outros”.
O espírito da guarda nacional está resumido nestas palavras: “É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos”.
As repartições públicas não trabalhavam de modo diferente. De Genelício se fala: “Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha.Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. (...) Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima. Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio”.
A mediocridade levava-os à violência em busca da autopreservação e do poder. E qualquer um que demonstrasse possuir capacidade de pensamento, de expressão, de valor humano, era atacado como um inimigo de guerra:
“- É bom pensar, sonhar consola, disse Ricardo.
Responde Quaresma: “- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismo entre os homens...”
O requerimento de Quaresma foi um tiro direto contra as mentes inertes.
Na verdade “...é como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade, ao anonimato papeleiro”.
E os motivos eram mesquinhos: “Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-próprio, de sentimentos feridos(...). A brusca popularidade de Quaresma e seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores”.
O Dr. Rocha talvez seja uma boa figura do sistema: “...tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma”.
E, foi na deflagração da guerra que todos eles - e muitos outros - viram as condições propícias para a ascensão que tanto almejavam: “A cidade andava inçada de secretas, ‘familiares’ do Santo Ofício Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.(...) Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo...”
Albernaz viu na revolta “...uma certa esperança na ação do Marechal. Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do Moura, esperava obter uma outra comissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá”. Bustamante “...imaginava organizar um batalhão patriótico... e naturalmente seria o seu comandante, com todas as vantagens do posto de coronel. Genelício ...esperava ser subdiretor”. O Dr. Armando Borges, “o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante, colocava na revolta a realização de risonhos anelos”.
Somando-se a todos, os políticos não eram exceção. As lutas eleitorais tornavam-nos verdadeiros desumanos: “...o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante. (...) Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? (...) Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no trabalho de fecundá-la, de tirar dela seres, vidas - trabalho igual ao de Deus e dos artistas? (...) O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo”.
É importante ter em mente que, antes de significar “oração feita pelos vivos em benefício dos mortos”, mesmo na linguagem da Igreja Católica, o suffragium era o voto oral dado pelos leigos nas eleições do clero. Saindo da terminologia religiosa, significou o boletim com a votação nas eleições em Roma. Quaresma entendia que esse processo brutal de luta pelo poder, de conquista de votos, de provocar a “...desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera...” dos políticos era um flagelo, uma violência!
E os civis? Não eram menos medíocres. A diferenciação classista, que era muito forte, bem evidencia isto. Coleoni, um dos discípulos “ao longe” de Quaresma, convivia contrariado com os modos de falsa nobreza, com os desdéns dissimulados, com as tagarelices de casamentos, de bailes, de festas e de passeios caros comuns à alta nobreza.
Cabe lembrar que Coleoni, embora procurasse entender e ajudar Quaresma (inclusive evitando sua demissão, transformando-a em aposentadoria), não tinha encontrado a libertação completa da escala de valores da sociedade que o envolvia. Não conseguia olhar Quaresma além da visão natural; bem diferente de Olga que via seu padrinho no interior através do seu “...olhar luminoso e perscrutador...”.
Quando o pai de Olga soube do requerimento de Policarpo pensou: “Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mas daí quem sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos?”
A separação classista era nítida pela própria maneira como as pessoas transitavam pelas ruas: “Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; há operário de tamancos; há peralvilho à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa. Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito. Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino”.
A festa na casa do General Albernaz é mais uma oportunidade que temos para verificar o quanto a alta sociedade poderia ser cômica, e por que não, ridícula. Embora pretendessem transparecer evolução, se portavam como seres de conteúdo interior nulo: “Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquele tecido caro que parecia requerer corpos elegantes e flexíveis. (...) Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça, tinha muito pó-de-arroz, estava sempre a consertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. (...) Genelício... caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.(...)a fila estava no general, metido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. (...) As âncoras reluziam como metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. (...) Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai”.
Outro exemplo é o do marido de Olga que resistia em ir visitar Quaresma, porque afinal de contas “...não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna”.
Quaresma, no “Sossego”, assim reflete sobre a vida comum: “Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos...”.
O capítulo “O Bibelot” mostra-nos um pouco mais o tipo de sociedade que havia. O hospício, lugar onde todos estão nivelados, era propício a uma reflexão sobre si mesmo e sobre seus interesses, porém “os visitantes não se olhavam, pareciam que não queriam conhecer-se na rua”. A pobreza de espírito não lhes possibilitava ver a si mesmos como loucos considerados sãos, vivendo sob a lei da indiferença e da crueldade.
Estavam cauterizados a ponto de não verem que “a cidade é como um esqueleto, faltam-lhe as carnes...”, faltam-lhe a agitação, a vida, o dinamismo que provém do sangue que corre, do calor que movimenta. Eram apenas esqueletos, mortos. Até mesmo para os mais ricos, a vida consistia em apenas etiquetas e, portanto, era vazia, fria como as palmas que soaram direcionadas à filha de Lemos, que embora tenha cantado e tocado piano com perfeição, não escondia “...o mau gosto de uma moça bem-educada”.
Os valores sociais estavam invertidos a ponto de uma Síntese de Contabilidade Pública Científica (da qual dois terços era mera documentação de decretos e portarias), receber - baseado na beleza da expressão - elogios da imprensa e dos críticos, além de ser digna de um prêmio, vindo do Ministro, de dois contos.
O tratamento dado a algo tão fútil foi inteiramente contrário ao que foi dado ao Requerimento de Quaresma. E como se isso não bastasse, o pouco caso que Floriano fez do Memorial - rasgando um pedaço das primeiras páginas e escrevendo ao seu Ministro de Guerra -, nos revela uma completa má vontade de mudanças, e até mesmo de se refletir sobre a necessidade delas.
Diante disto, podemos imaginar o grande prestígio que teve o lançamento do artigo, em estilo clássico, sobre “Ferimentos por arma de fogo” que Armando estava “traduzindo”. As inversões de orações, os períodos picados por vírgulas, as substituições sinonímicas, sem dúvida faziam com que a obra começasse “...a causar admiração aos seus pares e ao público em geral”.
Excetuando-se Olga, Ricardo, Coleoni e alguns outros poucos sem expressividade, todos os demais estavam embrutecidos pela natureza irracional e pela inversão de valores, e por isso não poderiam ter agido de modo diferente quando Ricardo procurou neles ajuda para Quaresma. Como no julgamento de Cristo - onde todos os principais sacerdotes, fariseus, doutores da lei gritaram uníssono a Pilatos: crucifica-o! -, também quanto a Quaresma gritaram para Floriano: mata-o!
Na voz de um secretário ou ajudante-de-ordens: “- Quem, Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!”. Todos lavaram as mãos e entregaram-no ao algoz.
Podemos notar que a violência tem o seu lugar como um elemento diferenciador e caracterizador entre os homens.
Ora, tanto a loucura de Quaresma, quanto a decisão de se mudar para o “Sossego” ou a de ir lutar a favor de Floriano, foram resultantes das violências inerentes no indivíduo e na sociedade por ele sofridas. Cercado pela incompreensão total e pela pressão de homens vis, vai à loucura e ao desânimo: “A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia, nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos, os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar”.
A recuperação, porém, não o deixou como antes. Na verdade, o seu interior havia sofrido modificação: “Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente. (...) Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. (...)Embora nunca tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral...”.
Sendo um homem de grande poder de decisão, pensou que poderia expressar a riqueza brasileira por outra forma de vida. Não mais através da futilidade de um requerimento. E “então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte base agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher”.
Então foi assim que “...para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas”. Foi para o “Sossego” idealista do mesmo jeito: “Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos. Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito contente ficou em vê-la monetariamente atraente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil”.
Porém, foi agredido pela política suja, violenta e hipócrita, tendo inclusive sido denominado de “intruso” pelo jornal local. Os impostos cruéis, os preços injustos, o trabalho desvalorizado com lucro insignificante, encaminharam-no à reflexão de que estava nadando contra a maré.
E foi assim que, decidindo lutar por uma pátria mais justa, regida por leis humanas, agregou-se ao exército da República: “Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas agrícolas - tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil. Era preciso trabalho maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração. Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esse óbices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador... Então sim! O celeiro surgiria e a pátria seria feliz”.
Embora o major acreditasse na realização de reformas profundas, a forte resistência que vinha sentindo durante a vida já o fazia incerto, mudado quanto a suas opiniões: “Pensava ...na reforma radical que ele (Floriano) ia levar ao organismo aniquilado da pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos”. Quaresma já não era o mesmo!
Alistando-se no exército, esperava poder levar ao ditador idéias renovadoras, e foi com seu espírito patriótico que redigiu um Memorial dirigido a Floriano: “- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...”.
Um escrito recebido com desdém, com gesto de mau humor, com preguiça, com aborrecimento, com desfeita. Rasgando um pedaço do manuscrito, o Marechal escreveu ordens ao Ministro da Guerra.
Mas como Floriano era visto por seus seguidores? Os cadetes da Escola Militar viam nele a imagem do divino, a figura do ídolo que recebe adoração: “Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a República, em artigo de fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade”.
Porém a verdadeira imagem do Marechal e da República já tinham passado pelos olhos de Quaresma que não a quis aceitar: “Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande ‘mosca’; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso - parecia não ter nervos. Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si”. Face ao seu entusiasmo do protagonista, considerava-o forte, sincero, desinteressado, enérgico, fino, supervidente, tenaz, conhecedor das necessidades do país, e possuidor de tibieza de ânimo. Embora Floriano fracamente acobertasse e não reprimia a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas, “Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo, foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar”.
Essa concepção, por sua vez, não durou muito. Inicialmente, ele se defronta com o pouco caso em relação ao seu manuscrito. Depois, além de ser ouvido com “sinais do aborrecimento mais mortal”, é cognominado de visionário. E então, começa a sofrer pelas notícias de violências e crimes.
E é nesse contexto que Quaresma vai se revoltando, se modificando: “A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente. Tanto mais que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e desesperança. Na verdade o major tinha um espinho n’alma. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do ditador.Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionário, que não avaliava o alcance dos seus projetos, que os não examinava sequer, desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse! Era pois para sustentar tal homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural? Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si mesmo..”..
Quando Quaresma foi à luta e viveu e presenciou a crueldade, o sofrimento, a ferocidade; percebeu que a violência, individualmente realizada e socialmente consentida, poderia levar, mesmo o homem mais idealista, à matança dos semelhantes para satisfazer homens inescrupulosos; entendeu que os desejos mesquinhos desembocavam no mar da agressão, da falta de amor, da falta de compaixão. Concluiu que a humanidade ainda permanecia pré-histórica, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, sempre a matar.
O fim da luta estava próximo e os militares estavam inconformados com isso em razão dos interesses materiais: “O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro; e o general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhor a situação da família.(...) Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção”.
Os indivíduos continuavam a ser insensíveis, falsos, perversos. Não havia sentimento exceto o da satisfação própria. No velório do Senador Clarimundo, as vozes, em tom tão frio quanto o morto, diziam: “mea culpa, mea maxima culpa...”.
Todas os motivos pelos quais Policarpo lutou eram utopias num mundo que abertamente os rejeitava. Todo sofrimento, vergonha, sangue, foram inúteis. Quaresma despertara: “Esta vida é absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver. (...) Além do que, penso, que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido; e o sangue que derramei e o sofrimento que vou sofrer toda a vida, foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol de um tolice política qualquer... Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade”.
Quaresma chega ao monte Calvário consciente de que seu patriotismo, desde aos 18 anos, não lhe trouxera nenhuma satisfação. Chegou desiludido por não ter sido compreendido; chegou cansado moral e intelectualmente: “O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era tão fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções. (...) Era grande a sua desilusão”.
A recompensa por sua contribuição, o prêmio por ter investido toda a sua mocidade no patriotismo, o troféu por ter deixado os prazeres naturais em prol da busca de uma sociedade justa, foi a morte. Foi condenado à morte por ter sido sincero numa sociedade hipócrita.
Terminada a guerra, todos voltaram à vida fugaz cotidiana; Quaresma, porém, sofreu a dor da morte por viver uma filosofia de vida avançada demais para seres inertes no tempo.
Apenas dois discípulos foram deixados para dar continuidade à sua obra: Olga e Ricardo Coração dos Outros, os quais, em tentativa inútil, haviam procurado salvar Policarpo. Olga, ao caminhar ao encontro de Ricardo, olha as imagens ao seu redor. Muita coisa já se tinha mudado na fisionomia da terra, nos aspectos e no clima. E a sua esperança era a de que um dia talvez as modificações obtivessem uma abrangência ainda maior: “Esperemos mais....” Mais do que na aparência, transformações nos valores de cada um, pois interiormente - nada diferente do que presenciamos no mundo pós-moderno - as pessoas ainda continuavam ligadas às tribos selvagens que ali haviam habitado. Matariam o Cristo e os cristos quantas vezes aparecessem. A tecnologia avançara, porém o pensamento humano a respeito da vida e de si ainda permanecia o mesmo que há muitos séculos: “Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros”.