ADVERTÊNCIA

Este Blog contém algumas de minhas ideias, crenças e valores. Por não ter o objetivo de ser referência, não deve ser acolhido como "argumento de autoridade" e, muito menos, como verdade demonstrativa, cartesiana.

Aqui o leitor encontrará apenas reflexões e posições pessoais que poderão ser peneiradas e, por isso mesmo, rejeitadas ou aceitas, odiadas ou amadas. Assim, não espere encontrar fidelidade a alguma linha de pensamento ou a uma ideologia em particular. Permito-me a contradição, a incerteza, a hesitação, a descrença, a ironia; permito-me pensar.

Após as leituras, sei que uns concordarão, outros não, e haverá também os que encerrarão a visita levando uma pulga atrás da orelha. Não me importo. Se causar alguma reação, mesmo o desassossego, considero que atingi o meio. O fim fica por sua conta.

Abraços a todos e boa leitura.

PS: Acesse também: http://moisesolim1.blogspot.com.br/

domingo, 29 de março de 2009

FIEL É O QUE PROMETEU

Hebreus 10:19-23

(19) Tendo, portanto, irmãos,
liberdade para falar (ousadia de expressão) em direção ao acesso das coisas santas, no sangue de Jesus, (20) que fez novo em nós um caminho recente e vivo através do véu (cortina), isto é, da carne dele.
e
(21) grande sacerdote sobre a casa de Deus,

(22) acheguemo-nos (aproximemo-nos) com verdadeiro coração em porte pleno de fé, aspergidos (purificados) os corações da má consciência e lavados em relação ao corpo com água pura.

(23) seguremos fortemente o igual discurso (discurso concordante, harmônico) da esperança não inclinada (não entortada), pois fiel é o que prometeu...



Estamos diante de uma exortação, isto é, de palavras de encorajamento espiritual. O escritor quer tanto motivar os seus leitores a manter uma relação próxima com Deus quanto persuadi-los às ações de aproximação (acheguemo-nos) e de sustentação (seguremos fortemente).

Mas o que autoriza essa aproximação (v. 22)? O que nos leva a manter firmemente o discurso harmônico da esperança não entortada (v. 23)?

Primeiro, a condição de podermos nos mover sem medo, de podermos dirigir nossas palavras livremente aos lugares santos onde estão as coisas santas (v. 19). Essa liberdade às portas de acesso foi conquistada no sangue de Jesus (v. 19). Não só no sangue, pois o recente e vivo caminho (v. 20) foi inaugurado por meio da sua carne. Sangue e carne certificam a humanidade do Filho de Deus, a sua encarnação, o seu estado humanizado, mas também, a sua condição mortal, a sujeição de seu corpo ao sofrimento e à morte, de modo que pelo seu sangue derramado e pela sua carne vazada – o recente caminho (meio, maneira, modo) estabelecido - é que houve a concessão da LIBERDADE de nos endereçar ao que é santo.

Chama-nos a atenção o uso da palavra prósfaton – v. 20 - que traduzimos como recente. Na origem, porém, significa recentemente morto, evoluindo posteriormente para muito fresco> muito recente> novo. No contexto, o sentido original pode ter a sua razão de ser, pois o novo caminho que está vivo estivera recentemente morto. Aparentemente, o autor pretende fixar a dicotomia morto/vivo como essência desse caminho, como formado pela morte/vida. As suas características vivo e novo se estabelecem em conjunto com o seu outro lado indissociável: a morte. É do sangue vertido e da carne vazada, da oferta de Cristo em oblação (v. 10) e de seu levantamento dentre os mortos é que esse novo meio se firma. Considerando que o acesso a esse caminho (modo, maneira) se dá no sangue de Cristo e por meio da sua carne, é evidente que fazer referência ao que ao que estivera recentemente morto é asseverar que o acesso às coisas santas se dá por meio de Cristo (morto e ressuscitado).

Além dessa liberdade para dirigir-se ao lugar onde está Deus, o cristão ainda conta com um grande sacerdote (v. 21). Este sacerdote não é imperfeito, não oferece sacrifícios inaptos múltiplas vezes (v. 11), mas é grande. É grande porque o seu sacrifício foi o seu próprio corpo, perfeitamente oferecido uma única vez para remissão completa do pecador (v.12 e 14).

No v. 23, o autor fala o que se deve manter firmemente: o discurso harmônico da esperança não inclinada (portanto, reta, sem inclinação), isto é, a conservação da concordância que existe na esperança íntegra, alinhada à verdade, da fé cristã.


SURGE ENTÃO A QUESTÃO: EM QUE SE FIRMA ESSA ESPERANÇA?


Como se já não bastasse o fato do sacrifício perfeito de Cristo, o escritor de Hebreus (seja ele quem tenha sido, pouco importa) adiciona ainda a garantia da fidelidade do prometedor: v. 23 - ...pois fiel é o que prometeu...

Ora, como toda esperança, a esperança cristã é algo ainda não atingido, não alcançado; está relacionado ao futuro, embora seja “gestada” na alma do cristão no tempo presente. Mesmo que a esperança esteja ligada ao porvir, o cristão já se lhe resigna no presente, pois crê que fiel é o que prometeu. A perseverança/ paciência são essenciais para alcançar a realização da esperança (v. 36).

A necessidade de segurá-la (a esperança não-entortada) fortemente , porém, mostra-nos que ela é suscetível a influências destruidoras, que é passível de sofrer alterações negativas. Portanto, para firmá-la apela-se para o caráter daquele que fez a promessa. Mas quem é ele? Qual é a sua legitimidade? Que provas/evidências deixou de que é capaz de cumprir o prometido?

Somente quando se tem conhecimento suficiente a respeito daquele que promete e quando se aceita a sua autoridade e a sua legitimidade para prometer é que a esperança se mantém viva. Tão-só a aceitação da aptidão do prometedor seja validada, a esperança se estabiliza.

Para o escritor de Hebreus, o discurso concordante (harmonioso) da esperança não inclinada pode manter-se firme, porque está calcada na fidelidade de Deus (as evidências da competência de Deus estão espalhadas em todo o livro); ela é “não inclinada” (akliné), porque se sustenta no caráter imutável daquele que fez as promessas. Neste ponto, é evidente que a fé é o fundamento das coisas esperadas (11.1).


OUTRA QUESTÃO EMERGE: A QUEM OU A QUE A FIDELIDADE DIVINA SE MANTÉM?


Essa é uma das principais questões que poderíamos levantar neste momento.

Centrados em nós mesmos, não é incomum acreditarmos que Deus é fiel a NÓS!

Os textos bíblicos, porém, não validam essa ideia antropocêntrica. O hino que diz “tu és fiel Senhor, fiel a mim” parece refletir bem o pensamento do homem que concentra em si mesmo os atributos de Deus. Coloca-se como centro das intenções divinas, tornando Deus responsável pelo sucesso das suas atividades.

Associamos a fidelidade de Deus a carnês de contribuição financeira que “obrigam” Deus a agir, a ser fiel na retribuição do valor ofertado à instituição religiosa. Diz-se “Deus é fiel, por isso conquistei isso e aquilo”; “Deus é fiel, por isso vou conquistar isso e aquilo”, porque fiz um carnê para mim, um para minha esposa, um para o meu filhinho etc...

Associamos a fidelidade de Deus aos mais diversos problemas humanos: casar, engravidar, ganhar dinheiro, ter saúde, ganhar promoções no trabalho, ter passado em concursos, ter vencido o campeonato de futebol, ganhar em concorrências públicas, comprar bens...

Como uma espécie magia para “fechamento do corpo”, alguns fizeram tatuagens com essas palavras; como um talismã de proteção. Isso me lembra da época em que as pessoas compravam (ou compram ainda) o Salmo 23 ou o 91 e punham (põem) nas paredes, nas geladeiras, debaixo do travesseiro, para se sentirem seguras.

Teria sido porque “Deus é fiel” que o Ronaldo está jogando no Corinthians? Para alguns, provavelmente.

O egocentrismo é nítido quando observamos numa canção a ênfase da fidelidade de Deus para o homem:

Sim, Deus é fiel para cumprir
Toda palavra dita a mim
Deus é fiel, Deus é fiel

Sim, Deus é fiel, para cumprir

Toda promessa feita a mim
Deus é fiel, Deus é fiel

Fiz uma busca na internet da frase “Deus é fiel”. Não me surpreendi com os resultados, mas encontrei coisas bem bizarras como:

- FAZCABOS(DEUS É FIEL). Confeccionamos cabos de áudio e vídeo em geral sob medida para todo e qualquer equipamento eletrônico.

- Camiseta, DEUS É FIEL, religiosa, evangélica, biblia, gospel.

- DEUS É FIEL - CALCULADORA ESTOJO E CANETA 3 EM 1

- Adesivos Japoneses – Deus é Fiel - (kanjis - Ideogramas)

- Não foi difícil encontrar restaurantes, lojas de informática, imobiliárias, concessionária de veículos, óticas, chaveiro, Rádio, loja de turismo, de eventos, de antenas, chácara, caravana, comércios dos mais diversos com essa expressão ou com esse nome.

- Em algum lugar dos MUITOS sites pesquisados a expressão “Deus é fiel” está presente, como uma espécie de garantia divina de que o negócio vai dar certo. Destaco um caso em que uma pessoa, oferecendo serviços de construção e reforma de casas, colocou a expressão ao lado do anúncio certamente para garantir “vitória”.

- VÁRIOS ANÚNCIOS no Primeiramão trazem a expressão como um talismã para as vendas.

- Curiosamente encontrei em um fórum uma pessoa que perguntava:
“oi, gostaria de saber como se escreve a frase “Deus é fiel” em hebraico, japones, chines, arábe, alemão,muito obrigado...”

- Em um site chamado “Só na cachaça” encontrei a seguinte notícia: “Carla Perez é fiel!!
(http://74.125.113.132/search?q=cache:XHRdltbm-VwJ:www.sonacachaca.com/carla-perez-fiel/+%22Deus+%C3%A9+fiel%22&cd=347&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br)

Acho que com esses poucos exemplos, já é possível perceber a aberração que causamos a essas palavras.

Precisamos definir, então, A QUE OU A QUEM DEUS É FIEL.

A primeira coisa que precisamos lembrar é que todos os atributos de Deus pertencem-lhe por natureza e não por consequência. Deus não é amor em razão de algo existir para ser amado externo a ele. Deus não é imortal porque existem os mortais. Deus não é justiça porque existe a injustiça. Na verdade, o ódio, a mortalidade e a injustiça etc. existem por consequência, em oposição ao que Deus é. É bem o oposto, portanto.

Assim, a fidelidade divina não existe porque há seres a quem Deus “deve” ser fiel. Ela existe porque integra a natureza de Deus que se basta a si mesmo.

Então, a quem Deus seria amor, justiça, fiel etc. se a criação (do seres espirituais, do homem e de outros desconhecidos) não existisse? A resposta é simples: a si mesmo.

Leiamos:

Romanos 3: 1Qual é, logo, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? 2Muita, em toda maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas. 3Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus? 4De maneira nenhuma! Sempre seja Deus verdadeiro...

A infidelidade do homem não anula a fidelidade de Deus, porque ele se basta! Não depende de ninguém para ser o que é! Sua fidelidade se ajusta ao que Ele pensa e ao que Ele diz. A que ele permanece fiel? Às suas palavras que confiou aos homens, pois

2 Timóteo 2:13 se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.

Há momentos, porém, que Deus LIVREMENTE se compromete com homens. Com quais? Com todos? De jeito nenhum. Há promessas e promessas. Ninguém, por certo, em sã consciência, tomaria para si a que foi feita a Abraão, afirmando também que a sua posteridade se tornará como as estrelas do céu! Ninguém pode tomar o fim de Jó como padrão de ação divina quanto a todos. Ninguém pode achar que Enoque transladado é exemplo comum a todos, ou que a ressurreição de mortos sempre ocorrerá porque Elias ressuscitou o filho da viúva. Não é certo que a estéril terá filhos como Sara. Não é certo que a boca do leão sempre será fechada. Não é certo que a fornalha não nos arderá. Não é certo que seremos governadores do Egito. Não é garantido que faraó não nos alcançará. Ora, são promessas particulares, não extensíveis. Delas aprendemos que Deus pode e que faz segundo a Sua vontade e somente a quem Ele quiser. E isso é comprovado tanto pelas nossas próprias experiências de vida quanto pela Bíblia, como diz Hebreus 11:36-38:

36E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. 37Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos a fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados 38 (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.

Mas teria sido Deus infiel com estes e por isso sofreram tudo isso? DE MODO ALGUM. Acaso Deus lhes prometera algum livramento? Não! Assim, a fidelidade de Deus a si mesmo não está abalada! O sofrimento deles ensina-nos que servir a Deus não garante vida triunfal, que ser cristão não assegura o sucesso; ensina-nos que o ato de servi-Lo não deve ser dependente de Suas manifestações miraculosas, mesmo quando o leão está faminto. O certo é que Deus não perde os seus atributos, sejam eles quais forem, porque sofremos, perdemos e morremos. NÃO. Ele sempre será o que é, pois Ele se basta!


EM QUE, ENTÃO, A FIDELIDADE DE DEUS ATINGE A NOSSA VIDA?

Pelo menos em duas situações:

1) Quando há promessas gerais a todos os que crêem: (Mateus 28:20) e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!

Todas as promessas coletivas feitas à igreja serão fielmente cumpridas. Nesse exemplo, o “estou convosco” apenas promete a contínua presença, mas nada além disso no âmbito da vida humana. Não esperemos saúde, felicidade, imortalidade, riqueza dessa promessa. A atribuição de novos valores às promessas pode causar profundas inclinações na esperança, pois Deus não tem compromisso pessoal com eles. Pela fé, porém, sabemos que o Senhor comprometeu-se a estar conosco, seja qual for a situação vivida e seja qual for o seu desfecho.

2) Quando há promessa específica - que são mais raras - que exigirá uma manifestação exterior à Bíblia (sem nunca contradizê-la). Poderíamos relacionar aqui testemunhos de homens e mulheres que dedicaram suas vidas a Deus até a morte, e que receberam orientações e promessas particulares. Entretanto, desconheço que alguém tenha recebido algo para o bem-estar pessoal, para o sucesso individual, para o êxito em negócios particulares. Chego mesmo a duvidar de todo testemunho relacionado à satisfação da ambição humana:

Tiago 4:3: Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.

Quando lemos Hebreus 10.19-23 o que temos é uma palavra de encorajamento baseada em ações divinas. Cristo, o grande sacerdote, abriu no seu sangue e por meio de sua carne um caminho novo (meio novo), de modo que temos liberdade para falar (acesso livre a) com Deus. Nessas condições, o cristão é motivado a se achegar sem medo e a guardar fortemente o discurso concordante da esperança não-entortada. A razão disso tudo é que DEUS É FIEL, não a algum de nós, mas ao que Ele prometeu.

Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão Mateus 24.35

segunda-feira, 9 de março de 2009

Por que creio em Deus?

Não creio em Deus porque se diz que Ele cura,
pois toda vez que a mortalidade se mostrasse aguda (e ela se mostra frequentemente), eu deixaria de crer;

Não creio em Deus porque se diz que Ele salva,
pois se o mais próximo se perdesse (e isso sempre é possível), eu me tornaria descrente;

Não creio em Deus porque se diz que Ele fala,
pois quando ficasse mudo (quantos já O ouviram?), eu O desprezaria;

Não creio em Deus porque se diz que Ele é fiel,
pois quando não O entendesse assim, eu O abandonaria;

Creio porque Ele é; isso me basta.
(M.O. Ferreira)